O homem tapou o rosto com o resto do cachecol esfarrapado
tossiu
procurando em vão no umbral da porta refúgio, contra os elementos em fúria
naquela noite invernosa. E ali ficou estático, como se fizesse parte da noite.
Um carro que passava, iluminou por momentos um rosto sombreado. Aqui e ali, de contrastes de cera; teria talvez, trinta anos ou talvez mais.
Os olhos estavam encovados, pelas privações ao nariz bem proporcionado.
Boca de linhas firmes e queixo que fora outrora enérgico, todo ele denotava altivez e orgulho.
Há quanto tempo estaria ali, uma, duas, três horas. O tempo não significava para ele mais, do que a água que transborda do corpo.
Fechei as cortinas da janela, meu campo de observação, e tentei adivinhar os motivos que levam um homem a chegar ao estado de si mesmo, e renúncia á sociedade.
O relógio da sala bateu as três horas .Assustei-me. O seu bater era brusco e quebrou o silêncio conivente do meu espiar.
Meu Deus, criaste em nós medo, a dúvida, a angústia e acanhamento, que tornam mesquinhos os mais fortes, desfazendo castelos construídos á custa, muitas vezes, de sangue, suor, e lágrimas.
Sim. O pobre homem refletia naqueles olhos parados e de olhar vago, o abandono a que voluntariamente, se vetou, sem ambições, nem anseios, de espécie alguma. Nem vaidade, habitava nele e. Só pobreza , cansaço e frio, minavam a sua inexistência.
Um chiar de travões, sobressaltou-me. Corri para a janela, derrubando um banco e soltando uma praga habitual, quase arranquei a cortina do seu sítio, pelo brusco puxão. Os meus dedos trémulos e pressentidos, desembaciaram o vidro, e vi, oh DEUS, um corpo amarrotado e molhado no meio da rua inundada.
Instintivamente, os meus olhos voaram para o portal fronteiro, do meu observado. Não vi vivalma .Estava vazio.
O carro, sobre o manto encobridor da noite, perdeu-se ao longe, negando-se também ele, a reconhecer a existência daquele que por si próprio, já pouco era.
Vesti o impermeável por cima do pijama, desci as escadas a quatro e quatro e sob a chuvada forte, atravessei a rua, em direção ao corpo. Estava com o rosto para baixo; a morte o tinha vindo buscar.
Alertei as autoridades, para fazerem o seu funeral.
Amanhecia e já não pude adormecer. Uma lágrima me veio acordar dizendo apenas.
A vida é um vale de lágrimas e qualquer humano pode ser um abandonado.
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