sexta-feira, 8 de novembro de 2024

ABANDONADO

O homem tapou o rosto com o resto do cachecol esfarrapado

tossiu

procurando em vão no umbral da porta refúgio, contra os elementos em fúria

naquela noite invernosa. E ali ficou estático, como se fizesse parte da noite.

Um carro que passava, iluminou por momentos um rosto sombreado. Aqui e ali, de contrastes de cera; teria talvez, trinta anos ou talvez mais.

Os olhos estavam encovados, pelas privações ao nariz bem proporcionado.

Boca de linhas firmes e queixo que fora outrora enérgico, todo ele denotava altivez e orgulho.

Há quanto tempo estaria ali, uma, duas, três horas. O tempo não significava para ele mais, do que a água que transborda do corpo.

Fechei as cortinas da janela, meu campo de observação, e tentei adivinhar os motivos que levam um homem a chegar ao estado de si mesmo, e renúncia á sociedade.

O relógio da sala bateu as três horas .Assustei-me. O seu bater  era brusco e quebrou o silêncio conivente do meu espiar. 

Meu Deus, criaste em nós medo, a dúvida, a angústia e acanhamento, que tornam mesquinhos os mais fortes, desfazendo castelos construídos á custa, muitas vezes, de sangue, suor, e lágrimas.

Sim. O pobre homem refletia naqueles olhos parados e de olhar vago, o abandono a que voluntariamente, se vetou, sem ambições, nem anseios, de espécie alguma. Nem vaidade, habitava nele e. Só pobreza , cansaço e frio, minavam a sua inexistência.

Um chiar de travões, sobressaltou-me. Corri para a janela, derrubando um banco e soltando uma praga habitual, quase arranquei a cortina do seu sítio, pelo brusco puxão. Os meus dedos trémulos e pressentidos, desembaciaram o vidro, e vi, oh DEUS, um corpo amarrotado e molhado no meio da rua inundada.

Instintivamente, os meus olhos voaram para o portal fronteiro, do meu observado. Não vi vivalma .Estava vazio.

O carro, sobre o manto encobridor da noite, perdeu-se ao longe, negando-se também ele, a reconhecer a existência daquele que por si próprio, já pouco era.

Vesti o impermeável por cima do pijama, desci as escadas a quatro e quatro e sob a chuvada forte, atravessei a rua, em direção ao corpo. Estava com o rosto para baixo; a morte o tinha vindo buscar.

Alertei as autoridades, para fazerem o seu funeral.

Amanhecia e já não pude adormecer. Uma lágrima me veio acordar dizendo apenas.

A vida é um vale de lágrimas e qualquer humano pode ser um abandonado.




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